Residência artística Memórias Negres-Natives

O barro do chão no qual pisamos é onde os mortos ancestrais dormem, eles são nossas memórias e para as atualizarmos é preciso do documento carnal, o corpo. Tendo esses três pilares, chão, memória e corpo, a residência Memórias Negres-Natives (re)constrói a narrativa poética ancestral que nos leva ao encontro de um treinamento corporal e da criação sensível a partir das epistemologias negras e indígenas cearenses. Pensando na criação artística e na ampliação do corpo poroso ao processo temporal a residência, em seu caráter formativo e de criação, parte do pressuposto que a memória precisa ser exercitada para que amplie seu repertório potência, desse modo, o tônus muscular dançado/trabalhado neste direcionamento está diretamente ligado à expansão do tônus memorial. 

Esta imersão garante a reatualização das narrativas ancestrais de cada participante o fazendo mergulhar na sua história e entendendo que as memórias negras são também material poético de criação cênica e visual. Assim voltando o olhar dos corpos e corpas para as questões da comunidade, do território e os saberes onde mora.

Nessa segunda edição da residência, percebemos a necessidade de ampliar espaços de reflexão, debate e difusão do conhecimento para além dos espaços institucionais, incorporando práticas formativas e artísticas a partir de perspectivas múltiplas que levem em conta aspectos raciais, de gênero e sexualidade, territorialidades e de pensamentos contra hegemônicos. 

Considerando que foi identificado que este apagamento e essa negação das memórias, temporalidades e ancestralidades raciais faz criar-se um imaginário pejorativo e depreciativo sobre o intelecto e os fazeres tradicionais das comunidades negras e indígenas. Este projeto reconhece a necessidade que o artista negro e indígena tem de estar inserido no seu território, de sua comunidade, pois assim ele tem a possibilidade de narrar outros acontecimentos que não estão ligados a política de morte, genocida e etnocida criada pelo mundo em que vivemos. Já que o racismo é concretizado pelas gestualidades e imagens fantasiadas pela branquitude sobre os nossos corpos, por isso, a necessidade da população negra e indígena se auto-representar com as narrativas e óticas que lhe interessam os tirando do alvo da morte e os aproximando do referencial de vida. 

Foto: Nayra Maria